junho 21, 2007

Apenas uma farsa

Disse Marx que a história só se repete enquanto farsa. Então acho que posso dizer que respondi uma polêmica sobre um laptop para cada aluno na escola pública, com um argumento interessante para uma farsa.

Isso é sério?

Muito bom debate! Adorei como um dos colegas enumerou os motivos pelos quais um laptop por aluno não se sustenta. Sou professora da rede pública do Rj, estava até maio com a funcão de orientadora tecnológica, além de orientadora pedagógica e educacional (como sabem sou prof. líng. port readaptada). Estou fazendo um curso de extensão já há alguns 6 meses de Mídia e educação (Ufrj), participo de uma comissão de Ots que tenta, junto com a See, discutir um projeto político pedagógico para as tics na Educação. Olha, "não é brinquedo, não!” Como militante da escola pública sempre gostei das letras e das lutas, caso contrário, seria difícil continuar o que Adorno nos ensina: educar para a resistência diante da barbárie. Além disso, participo de um grupo de estudos e pesquisa sobre cinema e educação que a partir do 2* semestre darei mais atenção porque deve ser um projeto de mestrado. Diante da era do espetáculo e do esculacho em que é preciso visibilidade porque a imagem é tudo ou, se preferirem uma linguagem mais séria, era do capitalismo financeiro, da precarização de trabalho, da diminuição do Estado,... Nessa era pós-moderna, sinto dizer-lhes que os argumentos são os menos importantes. Na nossa atualidade o simulacro toma o lugar da verdade, da coerência e os interesses conseguem tornar absurdos coisas reais. Bem vindo ao deserto de real de Zizek é primoroso para pensar nossa Matrix. Essa é a barbárie, nossa tarefa a resistência, sem perder a ternura, qualquer coisa, podemos comprá-la na esquina. Tudo pode ser comprado! É uma piada ou é sério? Não vem ao caso, interessa apenas como fazemos com esse texto um tanto quanto indiferente, mas possível. Colegas, a See tem um orçamento de 14 milhões para equipamentos e materiais para às escola públicas do Rj. A mesma secretaria que chama professor II para ser contratado e não consegue porque o salário....!!!! A minha escola tem internet sem fio na sala em que trabalho. Os laptops irão chegar sem metodologia e sem políticas públicas sérias para implementá-los. VAmos gritar, como fazemos hoje, mas será apenas mais uma performance enloquecida que rapidamente mostrar-se-á patética. Então, vamos tentar nos apropriar desses laptops e fazer uma limonada. Como diz Manuel Bandeira o que não tem remédio.... É conformista?? É revolucionário? É a vida como ela é. Precisamos todos nos capacitar o mais possível para usarmos todas as ferramentas que forem dadas para a guerra, até que possamos tomar o poder e fazer a diferença. Vamos precisar comer pelas beradas e de preferência sem morrer por isso, senão, quem fará a diferença? E as ongs sérias que me desculpem, mas como tem gente ganhando dinheiro com a inclusão digital!.
Para terminar e vocês não pensarem que pirei, deixo um vídeo amador para rirem mais um pouco: tecnologia sem metodologia de uma oficina dada pela minha tutora, divirtam-se. Encontra-se em um link nesse mesmo blog.

junho 19, 2007

Imagens e coisas

Imagens e coisas: apropriações

Interessante é que a imagem é representação e não a própria coisa. Aqui é importante fazer referência ao quadro de Magritte: Leci n’est pas une pipe http://www.rascunho.net/critica.asp?id=373 (adoro essa imagem com legenda para discutir a representação como um signo que é a elaboração de uma imagem transformada em uma peça de arte). Mesmo não sendo o próprio objeto, pode ser muito mais que isso num mundo de simulacros em que os limites entre real e representação são cada vez mais tênues. A invasão ao Iraque, me vem a memória, transmitida em rede para todo o mundo, quem viu custou a acreditar não estar diante de um jogo de vídeo game. E foi importante que não parecesse real porque o que estava em jogo era a imagem dos EUA como defensor da humanidade contra os “terroristas”. A barbárie foi editada e passava por um filtro ideológico que não podia permitir mostrar a carnificina praticada contra aquele povo. A guerra limpa, como chamamos para que não pareçam humanos os que estão sendo executados.

A imagem e suas possibilidades de interpretação, apreensão e intervenção será capturada num lance de olhar menos disperso, nesse mundo em que a visibilidade é quem inaugura a própria existência de objetos e pessoas.

Pensar essas questões e pensar-se como sujeito cognitivo/criativo capaz de interagir e intervir no processo de construção da própria história.

Assim como foi feito um recorte para os atores dos próximos capítulos será necessária uma visão mais minuciosa do corpus escolhido. Isso é uma outra etapa.

Por hora, fiquemos com um texto de Manuel de Barros (Livro das ignorâças) que tenta justificar com imagens poéticas um pouco do que se pretende com esse projeto:

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas

Razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul –

Que nem uma criança que você olha de ave.

Eliana Cunha 19/06/07

maio 07, 2007

Não desistimos nunca...

Defender uma política pública inclusiva, ética e demasiadamente humana para a Educação do Estado do Rio de Janeiro é tarefa de toda a sociedade.

Não existe documento de cultura que não

seja ao mesmo tempo documento de barbárie

( Walter Benjamin)

As professoras orientadoras tecnológicas, que hoje integram uma comissão junto à See (Secretaria de Educação do Estado) para discutir um projeto de implementação das Tics (tecnológica da informação e da comunicação) na educação, além de reivindicar a volta da função dos ots, capacitados e certificados ao longo de 2006 - ainda não designados por falhas na máquina administrativa da See, vêm, de público, defender políticas públicas sérias para educação do Estado do Rio de Janeiro - historicamente construídas pela sociedade organizada e vetada pelo poder executivo.

É mister lembrar que um Plano Nacional de Educação foi elaborado no II Congresso Nacional de Educação (CONED), de 6 a 9 de novembro de 1997, e encaminhado por deputados da oposição (PL 4155/98) e teve vetos absurdos que até hoje não conseguimos derrubar. Consultores de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados e Consultores de Orçamento, Fiscalização e Controle do Senado Federal afirmam que vetos não se justificam.[1]

Começamos nosso texto por essa lembrança para que fique bem claro que vamos continuar falando do óbvio até sermos ouvidos. Não sofremos apenas de uma epidemia de cegos, como nos sugere José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), há também uma deficiência auditiva e, se me permitem, um cinismo descarado que torna invisível aquilo que não tem justificativa e nunca terá.

Valei-me, mestre Benjamin, que já vislumbrava as marcas de nossa era paradoxal em que a civilização tenta encobrir, envergonhada, sua face bárbara. E é pensando nas nossas contradições que sinto anunciar, como um anjo de mau agouro, que a manchete, tão temida por um membro da See: “alunos em casa sem professores e laboratórios de informáticas recebendo equipamentos” faz parte de um pais marcado pelo absurdo que até Kafka acharia estranho. Se a professora da See fica estarrecida com essa idéia, imaginem como deve ficar perplexa diante das manchetes nossas de todo dia: "por falta de salas de aulas, alunos assistem aulas no banheiro”, “cada aluno terá um leptop nas escolas públicas até o ano que vem”, “proposta de piso nacional para todos os professores não pode ser menor que R$800,00 "– por 40 hora, é claro, "professor tem avc na escola quando pedem para que ele trabalhe mais 5 anos para poder se aposentar", "aluno manda bomba para professora, que tem a mão amputada''.

Acho que vamos precisar de outros meios (mídias) para tornar visível nosso mundo paradoxal entre a perplexidade e as incertezas, simultaneamente atravessado pelo desenvolvimento técnico avassalador e pelo crescimento vestiginoso da miséria e da fome. É preciso tocar de alguma forma essa "gente ensurdecida" (Camões). E, se preciso for, vamos passar filmes, clipes (Do pó aos bytes, já fiz o roteiro - cuja idéia surgiu a partir de uma cena no SBT/Rj mostrando o caos das escolas no Estado no início de 2006: no meio dos escombros de uma escola vários disquetes e peças de computador, cena digna das ruínas que nos fala Benjamin), fazer performances, dramatizar textos, cantar, dançar... para mostrar a vida como ela é, no dito popular “não é brinquedo, não!” e na fala do poeta Borges:

Nosso destino (...) não é espantoso porque irreal: é espantoso porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas sou eu o rio; é um tigre que me destrói, mas sou eu o tigre; é um fogo que me consome, mas sou eu o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real: eu, desgraçadamente, sou Borges.(p. 409)[2]


] Notas das aulas de Políticas Públicas ministradas pela dedicadíssima prof.dra. Bertha/Uerj em curso de extensão: Formação continuada de Educadores do Sepe: multiplicadores em extensão em parceria do Sepe/Uff/Uerj - Abril a julho de 2001

[2] In: Schinitman, Dora Fried. Nuevos paradigmas, cultura y subjetividad. Buenos aires: Piados, 1995: 395-413

maio 06, 2007

Vale a pena apostar no compromisso com uma educação de qualidade! Parceria Público Público - nessa, eu acredito!

UFRJ



Faculdade de Educação
Departamento de Fundamentos da Educação

Centro de Filosofia e Ciências Humanas – Faculdade de Educação

Setor: Psicologia da Educação


CURSO DE EXTENSÃO: CINEMA PARA APRENDER E DESAPRENDER

Coordena: Profª Drª Adriana Fresquet

Co-coordena: Profª Drª Elizabeth Luiz Soares

Um dos mais efetivos modos de aprender sobre si mesmo

é tomando seriamente a cultura de outros.

Edward Hall

Rio de Janeiro
2007

Introdução e apresentação

O projeto do curso de extensão CINEMA PARA APRENDER E DESAPRENDER é um desdobramento articulado do projeto de pesquisa com o mesmo nome, ambos coordenados pela Profª. Drª. Adriana Fresquet, professora adjunta da disciplina Psicologia da Educação I na Faculdade de Educação da UFRJ Este curso de extensão pretende, a partir da experiência do cinema, sensibilizar o professor e o aluno para possíveis vivências ligadas às aprendizagens mais vitais de um ser humano, valorizando a possibilidade do cinema de afetar de uma forma única a inteligência, a afetividade e os sentidos.

Público Alvo

O curso de extensão está aberto a todos os professores de ensino médio, educação fundamental e educação infantil da rede pública de ensino preferencialmente. Igualmente, no dia do curso dos alunos, aceitaremos preferencialmente alunos de ensino médio da rede regular de ensino.

Objetivos do Curso

  • Aproximar professores e alunos da experiência do cinema.

  • Vivenciar o cinema como uma forma de aprendizagem.

  • Pensar a possibilidade de aprender em três tempos: aprender, desaprender e reaprender.

  • Criticar a utilização pedagógica do cinema apenas como recurso didático.

MAIS...

abril 23, 2007

Valei-me, mestre Sócrates!

Sobre o entendimento simplista de sala de aula e a falta de critérios objetivos para a avaliação dos profissionais da educação.

... E que todos falem ao mesmo tempo

para que fique bem claro o desentendimento.

Lídia Jorge

Enquanto preparávamos o relatório da última audiência com a See, sobre a “novela” em que se transformou a situação dos orientadores tecnológicos na Rede, eu e a professora Amim, tentávamos pensar critérios objetivos mais justos para avaliar o trabalho desses professores nos Lieds. Reafirmamos a posição que defendemos na audiência: o processo avaliativo deve ser contínuo, concordamos com o ponto de vista da See a esse respeito, até porque a continuidade é um princípio próprio da avaliação que, antes de ser punitiva, pretende-se diagnóstica para corrigir possíveis “erros” cometidos no percurso. É importante dizer que avaliação enquanto processo é um meio e não um fim, por isso há que se cuidar de todo o caminhar e não apenas da chegada. Aprendemos, nesse “fazer-se” professor, que a vida acontece enquanto tentamos chegar e não apenas na chegada.

Além de concordar com a continuidade do processo avaliativo defendemos que, no momento, o único critério objetivo que podemos lançar mão para avaliar esses professores seria o da certificação recebida pelos ots capacitados no ano passado pelos Ntes. Qualquer outro critério, agora, corre o risco de ter um caráter perigosamente subjetivo dado há, pelo menos, duas circunstâncias: 1o. o projeto de informática educativa está apenas no início de sua implementação na Rede Pública Estadual; 2o. o pouco tempo da nova gestão da See - há quatro meses na administração – que sequer tomou pé da situação da pasta devido, inclusive, a urgência de viabilizar o início do ano letivo que, até hoje, está comprometido, com prédios em risco de desabamento, falta de profissionais de apoio e de professores nas escolas. Problemas que tanto conhecemos dada a sua reincidência. Nada que não seja público e notório há algum tempo nos serviços públicos prestados para os trabalhadores do Brasil.

Até que sejamos convencidos do contrário, não podemos abrir mão dessa posição. Por conta dessa nossa insistência, a See apresentou as denuncias contra os ots “inoperantes”, tentando uma outra justificativa para a retirada de todos os ots dos Lieds ,e, conseqüentemente, seu fechamento. Outra justificativa para tal atitude contra os ots, que não convence mais ninguém, é a necessidade de professores em “sala de aula” ser prioridade da See.

Vale a pena ver de novo para que não esqueçamos porque correríamos o risco de repetir os mesmos erros. Não são apenas os Lieds que têm seu projeto interrompido pela carência de profissionais na Educação. Os vários laboratórios de física, química, biologia, matemática, salas de leitura, de vídeo, teatro, há anos, são desativados no Estado. As funções de coordenador de disciplina, do coordenador pedagógico, do orientador educacional, também tiveram o mesmo fim com a mesma justificativa. E é bom que fique claro que essas funções - suporte indispensável para o processo ensino aprendizagem - precisam ser indicadas não por critérios de função extra classe e sim pelo compromisso desse ou daquele profissional com o projeto político pedagógico da escola e sua capacitação para a construção de soluções junto à comunidade escolar.

Como se vê, temos muitas razões para defender nossa posição: designação para os ots e abertura imediata dos Lieds. Mas isso não pareceu suficiente para a See, que sugeriu a constituição de uma comissão paritária para aprofundarmos todas essas e outras discussões especificas do projeto de informática educativa. Até porque fomos veementes em apelar, no final da audiência, para que a See não permita o uso dos Lieds sem uma pessoa para responder por todos aqueles equipamentos. No momento em que se está implementando os Lieds no Estado, é de fundamental importância esse cuidado, com o tempo, o ot poderá cumprir outras funções mais fundamentais. Agora, em que não temos mais a figura do aluno monitor, a comunidade escolar está apenas começando a entrar nos laboratórios, vários equipamentos estão sendo instalados e outros aguardando instalações, o ot é como o barco necessário para a travessia, depois poderá ser abandonado e o Lied ser de fato da escola em todos os sentidos. Primeiro precisamos multiplicar nossa capacitação e avançar nela. Aproveitamos para relembrá-los dos inúmeros processos de roubo e uso inadequado dos Lieds existentes nos Ntes para apuração.

Só para ilustrar essa cena, chamo a atenção para a história recente dos consultórios médicos e dentários muito bem equipados dos Cieps e Ginásios Públicos - hoje, abandonados e sucateados - um exemplo cruel do descaso com a verba pública, dinheiro dos trabalhadores desse Estado.

Adorno nos ensinou que diante de situações extremas, precisamos resistir. Como educar em tempos “sombrios”? Ensina o filósofo: com uma educação que resista ao que está posto. É o que temos feito ao longo da história da educação brasileira, é o que temos que fazer para que sucessivos governos não continuem interrompendo projetos pedagógicos que possibilitam a qualidade da educação pública no Brasil. Charge Mafalda - Quino/tiras. Nessa fala, não existe nenhuma ilusão com a promessa do “admirável mundo novo”, inaugurada pelo Iluminismo e, até hoje, perseguida. Trata-se, apenas, de uma preocupação com o tempo que passa e nada ou quase nada vemos avançar nas políticas públicas para essa população cansada de traições.

E para tentarmos dialogar com a See, que parece precisar de mais dados para pensar a celeuma dos ots, gostaria de apreciar ou reafirmar algumas considerações para tentarmos, talvez, desfazer tantos “desentendimentos” (referência à epígrafe do texto) percebidos nas falas dissonantes:

1o. A carência de professores na Rede, assim como a de pessoal de apoio, tem a ver com um projeto mais amplo que precisa ser trazido à tona para politizarmos, no sentido de contextualizar a discussão (política tem sido confundida erradamente com partidarização, a concepção aqui é defendida enquanto posição coletiva construída e não imposta dentro da polis – cidade). Trata-se de um projeto conhecido como flexibilização das relações de trabalho nas instituições públicas no mundo, ditado pelo Banco Mundial que muitos conhecem como globalização, neoliberalismo, diminuição do Estado ou apenas como capitalismo flexível ou imperialista. Em nome do qual atropela-se direitos adquiridos como paridade, aposentadoria, planos de cargos e salários e até mesmo direito à licença para estudo e licença médica. Essa flexibilização abre caminho para terceirizados, contratados, ongs, no lugar de concursos e licitações, e, articulada com a carência de políticas públicas comprometidas com os serviços de qualidade na Nação, nos Estados e Municípios, tem como objetivo o desmonte do Estado e, conseqüentemente, sua privatização. Dentro dessa lógica do capital, os direitos transformam-se em serviços, os benefícios passam a ser considerados custos e os responsáveis pelos déficits públicos.

Essa carência de qualidade para os serviços públicos passa, inegavelmente, por salários dignos, condições de trabalho saudáveis, transparentes, democráticas e humanas sem as quais tudo continuará sendo medidas paliativas e não soluções sérias;

Mais...

Essas são as minha impressões sobre o fato, por isso sobrepostas - nome dessa página (blog).

abril 20, 2007

Sobre o colóquio na Puc/Rio: intinerários de Walter Benjamim no Brasil

Valeu a pena... Valeu a pena (Rappa)

Muito bom ver estudiosos tão importantes como os mestres Wille Bolle (USP), Solange Jobim e Sonia Kramer, Kátia Muricy, Leandro Konder (PUC/Rio) e Olgária Mattos (USP) se apropriando de um pensamento tão profundo e atual como o de Benjamim. Hoje, na era do esculacho, do superficial, do descartável do a-político... é muito bom ouvir pessoas que nos fazem acreditar que a luta pela transformção do que está posto é possível.

Cheguei a tempo de ouvir as considerações finais do mestre Wille Bolle, um dos grandes especialistas mundiais em Benjamim, como também o são os demais conferencistas, mas foi possível captar a defesa que ele fez, digna da humildade dos sábios, sobre a excelência que precisamos buscar para os outros segmentos da educação além da Universidade. Lembrou-nos da tarefa de articular essa excelência do primário à Universidade e ilustrou com sua infância nas escolas de Berlim. Foi maravilhoso assistir ao grande estudioso falar da nossa responsabilidade com uma educação pública de qualidade em todos os níveis. Estávamos na Puc, mas isso parece ter sido providencial! Temos que continuar acreditando na força da nossa luta por uma escola pública de qualidade.
Lindo foi ver o mestre Leandro Konder com tanta energia e vida , apesar das limitações que sua saúde tenta - mas não consegue - lhe impor; ousar dizer " enquanto houver um desesperado no mundo, temos a responsabilidade de acreditar na esperança". Ganhei o dia!!!!
E as mestras da Puc/Rio? Todo nosso agradecimento por tão lindas palavras e rigor nos estudos de Benjamim.
Adorei ver ao vivo e a cores a grande estudiosa de Benjamim, a mestra Olgaria Mattos. Ela é tudo aquilo que seus livros demonstram e mais. Fala com tanto prazer de um assunto que estuda há mais de 20 anos e nos passa um frescor de "pasmo essencial ", fundamental na construção do conhecimento. Ela fez uma leitura de Benjamim, entre tudo o mais, articulando cidade, subúrbio e estado de exceção - onde as Leis são privatizadas e não servem para todos, só para uma minoria privilegiada. Aproximou o séc. XVII barroco ao capitalismo contemporâneo de Paris, capital do séc. XIX. A atualidade da discussão foi imediata! Identificamos-nos com os deserdados das Leis e direitos no tempo presente e injusto de um mundo que inverte todos os valores em nome do capital. Saímos do colóquio com as energias renovadas para constinuarmos nossa tarefa de construir um mundo melhor. Para concluir, busco as palavras do grande gênio, o mestre Leandro Konder,que, como ele mesmo se reconhece, "cata os cacos da esquerda": perdemos a partida (se referindo ao capitalismo flexivel de nossos "tempo sombrios"), mas não perdemos o campeonato. Aos grandes mestres, nossa eterna gratidão.

abril 18, 2007

Vídeo na escola: o prazer de aprender

É bom saber que muitos usam o vídeo de uma forma pedagógica e, como tal, política. Já ouvimos que alguns professores usam desse recurso para descansar. Talvez, se nossas condições fossem menos perversas e mais justas, ninguém precisasse usar desses procedimentos. Sejamos mais generosos e vamos ao que interessa.

Quero falar sobre o curta Ilha das Flores, tão citado no Brasil. Ganhador dos prêmios de montagem e de direção. Tem como música O Guarani de Carlos Gomes, inicialmente orquestrada e, finalizando o texto, numa versão ao som da guitarra de Gismmont. Junte-se a isso um trecho do poema Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles anunciando o que venha a ser a palavra liberdade.

É, além de um documento político e filosófico, uma elaboradíssima obra de arte. Mas é preciso preparar a platéia para essa compreensão porque tudo acontece muito rápido. E, para os desavisados, tudo não passará de tomates. Perdendo-se, assim, todos os referenciais importantes e artísticos de uma estética do choque.

Interessante é que o narrador (ator Paulo José) fala num mesmo tom do começo ao fim do curta deixando bem nítida a imparcialidade dessa voz em relação ao fato que está sendo contado. Por exemplo nessa cena: Crianças e mulheres, por serem livres, catam o lixo que servirá de alimentos depois dos porcos, que possuem um dono com dinheiro. Essa cena chocante é descrita num tom sem a mínima emoção o que dá uma força dramática maior a cena.

Outra situação que nos chama a atenção é que o curta é apresentado entre paradoxos. O que é narrado contradiz a imagem que é apresentada. Por exemplo, na cena em que o narrador fala do telencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor do homem - que o torna diferente dos animais - imediatamente mostra a imagem da explosão da bomba atômica e dos judeus sendo jogados nos túmulos coletivos. A Fala marca a inteligência enquanto a imagem denuncia a estupidez. A referência à música de Legião Urbana ( ... Vamos celebrar a estupidez humana....) é imediata.

Acho que esse é um dos materiais que podemos lançar mão em sala de aula para mostrar que aprender pressupõe trabalho, descoberta mas não impossibilita o prazer. Principalmente se tecido com um instrumental tão apropriado como pode ser um vídeo.

Muito mais há para se dizer sobre esse curta, mas fiquemos com os ensinamentos de Eduardo Prado coelho, um crítico português que preza o silêncio enquanto lugar da arte: a possibilidade de tudo que poderia ser dito.

O que ameaça a democracia

Diante, do que me atrevo a chamar, da cultura do esculacho não há democracia, há cinismo e populismo (a parte pejorativa desse termo) travestidos de liberdade de expressão. A cultura do esculacho tem dado muito lucro aos canais “Assina e atura”, “Tv acabo com você”, é a lógica do “Topa tudo por dinheiro”. A família toda assiste e se diverte vendo a vida como ela não é pelo buraco da fechadura dos “BBBs” da Globo. É de fato o “Pânico” na Tv!

Há tempos atrás, uma medida judicial tirou do ar o programa do “animador” João Cleber e no lugar apresentou uma proposta educativa com o objetivo de ensinar que a figura humana não pode ser transformada em ridículo e que a perversão dos direitos humanos deve ser punida. Muito boa a atitude contra o programa: uma ação judicial articulada com um projeto educativo. Que essa fala não seja vista como censura, igualando minha posição a dos autoritários anos de chumbo porque seria no mínimo rebaixar a discussão.

Sabemos que a Tv só respeita o que se converte em audiência. Com raras e dignas exceções, assistimos canais de tv apelando para o consumo politicamente correto e apostando em ações afirmativas porque isso hoje está na moda. Indico o Dvd; Quanto vale ou é por quilo. Ótima forma de ilustrar como a miséria, num mundo em que tudo é estetizado, vira um produto de mercado. O filme desmascara a “pilantropia” em ação e soube muito bem explorar as contradições de uma sociedade com viés solidário que, quando tem que se virar, o lema é: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Lembro de um episódio do “BBB” em que uma “personagem” falava o português de forma inadequada do ponto de vista da norma culta brasileira. Os alunos, de forma preconceituosa, a chamavam de burra. Então eu chamei atenção para o índice de analfabetos do Brasil. Mostrei nossa era da informação/ pós-moderna e seu paradoxo. Apesar da internet e de todo o avanço tecnológico, convivemos com o analfabetismo, a fome, o trabalho escravo, inclusive, o trabalho infantil. Os alunos compreenderam que, antes de lançar mão de qualquer juízo de valor, é preciso estar atento para critérios justos e principalmente para a contextualização das situações.

Precisamos reiventar a articulação entre progresso e humanidade e compreender que, em cada ação no nosso cotidiano, a medida de todas as coisas é a dignidade humana.. Isso é escolher não cruzar os braços diante de nossos vários alunos e diante de uma sociedade que quer ver a escola cumprir seu papel de emancipadora da classe trabalhadora. independente de gênero, raça, opção sexual, religião, ... Acho que essas reflexões fortalecem a resistência diante da barbárie, do esculacho e do cinismo travestidos de democracia/democratismos.