abril 18, 2007

Vídeo na escola: o prazer de aprender

É bom saber que muitos usam o vídeo de uma forma pedagógica e, como tal, política. Já ouvimos que alguns professores usam desse recurso para descansar. Talvez, se nossas condições fossem menos perversas e mais justas, ninguém precisasse usar desses procedimentos. Sejamos mais generosos e vamos ao que interessa.

Quero falar sobre o curta Ilha das Flores, tão citado no Brasil. Ganhador dos prêmios de montagem e de direção. Tem como música O Guarani de Carlos Gomes, inicialmente orquestrada e, finalizando o texto, numa versão ao som da guitarra de Gismmont. Junte-se a isso um trecho do poema Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles anunciando o que venha a ser a palavra liberdade.

É, além de um documento político e filosófico, uma elaboradíssima obra de arte. Mas é preciso preparar a platéia para essa compreensão porque tudo acontece muito rápido. E, para os desavisados, tudo não passará de tomates. Perdendo-se, assim, todos os referenciais importantes e artísticos de uma estética do choque.

Interessante é que o narrador (ator Paulo José) fala num mesmo tom do começo ao fim do curta deixando bem nítida a imparcialidade dessa voz em relação ao fato que está sendo contado. Por exemplo nessa cena: Crianças e mulheres, por serem livres, catam o lixo que servirá de alimentos depois dos porcos, que possuem um dono com dinheiro. Essa cena chocante é descrita num tom sem a mínima emoção o que dá uma força dramática maior a cena.

Outra situação que nos chama a atenção é que o curta é apresentado entre paradoxos. O que é narrado contradiz a imagem que é apresentada. Por exemplo, na cena em que o narrador fala do telencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor do homem - que o torna diferente dos animais - imediatamente mostra a imagem da explosão da bomba atômica e dos judeus sendo jogados nos túmulos coletivos. A Fala marca a inteligência enquanto a imagem denuncia a estupidez. A referência à música de Legião Urbana ( ... Vamos celebrar a estupidez humana....) é imediata.

Acho que esse é um dos materiais que podemos lançar mão em sala de aula para mostrar que aprender pressupõe trabalho, descoberta mas não impossibilita o prazer. Principalmente se tecido com um instrumental tão apropriado como pode ser um vídeo.

Muito mais há para se dizer sobre esse curta, mas fiquemos com os ensinamentos de Eduardo Prado coelho, um crítico português que preza o silêncio enquanto lugar da arte: a possibilidade de tudo que poderia ser dito.

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