Vídeo na escola: o prazer de aprender
É bom saber que muitos usam o vídeo de uma forma pedagógica e, como tal, política. Já ouvimos que alguns professores usam desse recurso para descansar. Talvez, se nossas condições fossem menos perversas e mais justas, ninguém precisasse usar desses procedimentos. Sejamos mais generosos e vamos ao que interessa.
Quero falar sobre o curta Ilha das Flores, tão citado no Brasil. Ganhador dos prêmios de montagem e de direção. Tem como música O Guarani de Carlos Gomes, inicialmente orquestrada e, finalizando o texto, numa versão ao som da guitarra de Gismmont. Junte-se a isso um trecho do poema Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles anunciando o que venha a ser a palavra liberdade.
É, além de um documento político e filosófico, uma elaboradíssima obra de arte. Mas é preciso preparar a platéia para essa compreensão porque tudo acontece muito rápido. E, para os desavisados, tudo não passará de tomates. Perdendo-se, assim, todos os referenciais importantes e artísticos de uma estética do choque.
Interessante é que o narrador (ator Paulo José) fala num mesmo tom do começo ao fim do curta deixando bem nítida a imparcialidade dessa voz em relação ao fato que está sendo contado. Por exemplo nessa cena: Crianças e mulheres, por serem livres, catam o lixo que servirá de alimentos depois dos porcos, que possuem um dono com dinheiro. Essa cena chocante é descrita num tom sem a mínima emoção o que dá uma força dramática maior a cena.
Outra situação que nos chama a atenção é que o curta é apresentado entre paradoxos. O que é narrado contradiz a imagem que é apresentada. Por exemplo, na cena em que o narrador fala do telencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor do homem - que o torna diferente dos animais - imediatamente mostra a imagem da explosão da bomba atômica e dos judeus sendo jogados nos túmulos coletivos. A Fala marca a inteligência enquanto a imagem denuncia a estupidez. A referência à música de Legião Urbana ( ... Vamos celebrar a estupidez humana....) é imediata.
Acho que esse é um dos materiais que podemos lançar mão em sala de aula para mostrar que aprender pressupõe trabalho, descoberta mas não impossibilita o prazer. Principalmente se tecido com um instrumental tão apropriado como pode ser um vídeo.

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