abril 20, 2007
Sobre o colóquio na Puc/Rio: intinerários de Walter Benjamim no Brasil
Muito bom ver estudiosos tão importantes como os mestres Wille Bolle (USP), Solange Jobim e Sonia Kramer, Kátia Muricy, Leandro Konder (PUC/Rio) e Olgária Mattos (USP) se apropriando de um pensamento tão profundo e atual como o de Benjamim. Hoje, na era do esculacho, do superficial, do descartável do a-político... é muito bom ouvir pessoas que nos fazem acreditar que a luta pela transformção do que está posto é possível.
Cheguei a tempo de ouvir as considerações finais do mestre Wille Bolle, um dos grandes especialistas mundiais em Benjamim, como também o são os demais conferencistas, mas foi possível captar a defesa que ele fez, digna da humildade dos sábios, sobre a excelência que precisamos buscar para os outros segmentos da educação além da Universidade. Lembrou-nos da tarefa de articular essa excelência do primário à Universidade e ilustrou com sua infância nas escolas de Berlim. Foi maravilhoso assistir ao grande estudioso falar da nossa responsabilidade com uma educação pública de qualidade em todos os níveis. Estávamos na Puc, mas isso parece ter sido providencial! Temos que continuar acreditando na força da nossa luta por uma escola pública de qualidade.
Lindo foi ver o mestre Leandro Konder com tanta energia e vida , apesar das limitações que sua saúde tenta - mas não consegue - lhe impor; ousar dizer " enquanto houver um desesperado no mundo, temos a responsabilidade de acreditar na esperança". Ganhei o dia!!!!
E as mestras da Puc/Rio? Todo nosso agradecimento por tão lindas palavras e rigor nos estudos de Benjamim.
Adorei ver ao vivo e a cores a grande estudiosa de Benjamim, a mestra Olgaria Mattos. Ela é tudo aquilo que seus livros demonstram e mais. Fala com tanto prazer de um assunto que estuda há mais de 20 anos e nos passa um frescor de "pasmo essencial ", fundamental na construção do conhecimento. Ela fez uma leitura de Benjamim, entre tudo o mais, articulando cidade, subúrbio e estado de exceção - onde as Leis são privatizadas e não servem para todos, só para uma minoria privilegiada. Aproximou o séc. XVII barroco ao capitalismo contemporâneo de Paris, capital do séc. XIX. A atualidade da discussão foi imediata! Identificamos-nos com os deserdados das Leis e direitos no tempo presente e injusto de um mundo que inverte todos os valores em nome do capital. Saímos do colóquio com as energias renovadas para constinuarmos nossa tarefa de construir um mundo melhor. Para concluir, busco as palavras do grande gênio, o mestre Leandro Konder,que, como ele mesmo se reconhece, "cata os cacos da esquerda": perdemos a partida (se referindo ao capitalismo flexivel de nossos "tempo sombrios"), mas não perdemos o campeonato. Aos grandes mestres, nossa eterna gratidão.
abril 18, 2007
Vídeo na escola: o prazer de aprender
É bom saber que muitos usam o vídeo de uma forma pedagógica e, como tal, política. Já ouvimos que alguns professores usam desse recurso para descansar. Talvez, se nossas condições fossem menos perversas e mais justas, ninguém precisasse usar desses procedimentos. Sejamos mais generosos e vamos ao que interessa.
Quero falar sobre o curta Ilha das Flores, tão citado no Brasil. Ganhador dos prêmios de montagem e de direção. Tem como música O Guarani de Carlos Gomes, inicialmente orquestrada e, finalizando o texto, numa versão ao som da guitarra de Gismmont. Junte-se a isso um trecho do poema Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles anunciando o que venha a ser a palavra liberdade.
É, além de um documento político e filosófico, uma elaboradíssima obra de arte. Mas é preciso preparar a platéia para essa compreensão porque tudo acontece muito rápido. E, para os desavisados, tudo não passará de tomates. Perdendo-se, assim, todos os referenciais importantes e artísticos de uma estética do choque.
Interessante é que o narrador (ator Paulo José) fala num mesmo tom do começo ao fim do curta deixando bem nítida a imparcialidade dessa voz em relação ao fato que está sendo contado. Por exemplo nessa cena: Crianças e mulheres, por serem livres, catam o lixo que servirá de alimentos depois dos porcos, que possuem um dono com dinheiro. Essa cena chocante é descrita num tom sem a mínima emoção o que dá uma força dramática maior a cena.
Outra situação que nos chama a atenção é que o curta é apresentado entre paradoxos. O que é narrado contradiz a imagem que é apresentada. Por exemplo, na cena em que o narrador fala do telencéfalo altamente desenvolvido e do polegar opositor do homem - que o torna diferente dos animais - imediatamente mostra a imagem da explosão da bomba atômica e dos judeus sendo jogados nos túmulos coletivos. A Fala marca a inteligência enquanto a imagem denuncia a estupidez. A referência à música de Legião Urbana ( ... Vamos celebrar a estupidez humana....) é imediata.
Acho que esse é um dos materiais que podemos lançar mão em sala de aula para mostrar que aprender pressupõe trabalho, descoberta mas não impossibilita o prazer. Principalmente se tecido com um instrumental tão apropriado como pode ser um vídeo.
O que ameaça a democracia
Diante, do que me atrevo a chamar, da cultura do esculacho não há democracia, há cinismo e populismo (a parte pejorativa desse termo) travestidos de liberdade de expressão. A cultura do esculacho tem dado muito lucro aos canais “Assina e atura”, “Tv acabo com você”, é a lógica do “Topa tudo por dinheiro”. A família toda assiste e se diverte vendo a vida como ela não é pelo buraco da fechadura dos “BBBs” da Globo. É de fato o “Pânico” na Tv!
Há tempos atrás, uma medida judicial tirou do ar o programa do “animador” João Cleber e no lugar apresentou uma proposta educativa com o objetivo de ensinar que a figura humana não pode ser transformada em ridículo e que a perversão dos direitos humanos deve ser punida. Muito boa a atitude contra o programa: uma ação judicial articulada com um projeto educativo. Que essa fala não seja vista como censura, igualando minha posição a dos autoritários anos de chumbo porque seria no mínimo rebaixar a discussão.
Sabemos que a Tv só respeita o que se converte em audiência. Com raras e dignas exceções, assistimos canais de tv apelando para o consumo politicamente correto e apostando em ações afirmativas porque isso hoje está na moda. Indico o Dvd; Quanto vale ou é por quilo. Ótima forma de ilustrar como a miséria, num mundo em que tudo é estetizado, vira um produto de mercado. O filme desmascara a “pilantropia” em ação e soube muito bem explorar as contradições de uma sociedade com viés solidário que, quando tem que se virar, o lema é: farinha pouca, meu pirão primeiro.
Lembro de um episódio do “BBB” em que uma “personagem” falava o português de forma inadequada do ponto de vista da norma culta brasileira. Os alunos, de forma preconceituosa, a chamavam de burra. Então eu chamei atenção para o índice de analfabetos do Brasil. Mostrei nossa era da informação/ pós-moderna e seu paradoxo. Apesar da internet e de todo o avanço tecnológico, convivemos com o analfabetismo, a fome, o trabalho escravo, inclusive, o trabalho infantil. Os alunos compreenderam que, antes de lançar mão de qualquer juízo de valor, é preciso estar atento para critérios justos e principalmente para a contextualização das situações.
