agosto 14, 2009
Cinema e escola: uma realidade
Tudo o que não invento é falso.
Manoel de Barros
Parte-se de uma constatação que hoje, no Brasil, as camadas adolescentes e jovens da população brasileira se apropriam do ciberespaço como discurso audiovisual interativo – youtube, myspace, orkut, etc. -, explorando subjetividades. Portanto é uma geração que já manipula essa escrita/linguagem.
Pretende-se que os alunos, já familiarizados com um discurso audiovisual, se apropriem da experiência de se tornarem, aos poucos, pequenos cineastas, no sentido de passar pelas principais etapas de pré-produção, produção e pós-produção de um filme. Ultrapassando os limites da vivência como espectador e experimentando a atitude como produtor de cinema, no ato concreto do fazer procura-se transformar os alunos em espectadores criativos e críticos dentro dos novos processos intersubjetivos.
Em outras palavras, justificamos o fazer cinema no Liceu na finalidade última de criar condições para que alunos do ensino médio tenham voz e vez na produção de cultura, na pesquisa e concretização de outras formas de dizer suas histórias. A partir da elaboração de material audiovisual, os alunos se reconhecerão como sujeitos transformadores do contexto em que estão inseridos e, além disso, proporão novas formas de escrita cinematográfica..
Esse projeto pretende que os alunos façam A experiência do cinema (Xavier, 2003) no sentido de passar pelas principais etapas de pré-produção produção e pós-produção de um filme. Trata-se, sem dúvidas, de uma forma de inovação, um impacto no processo escolar, na aprendizagem e na diversidade de produtos culturais que dele podem derivar.
Com essa iniciativa vamos tentar fazer do Liceu Nilo Peçanha um pólo disseminador que convoque e incentive a produção audiovisual nas escolas públicas, consubstanciado em um festival/mostra de cinema produzido em espaço escolar. Processo esse já iniciado com o resgate do cineclube do Liceu, que está para ser inaugurado ainda em 2009 e o início de uma oficina experimental de audiovisual (17/06) em parceria com a prefeitura de Niterói, coordenada por mim e o prof. Iterbio Galiano Aldrighi (Rádio MEC e Unitv/UFF).
Fica claro que essa proposta trabalha com um horizonte bastante definido. Apostamos na existência de um novo agente social – o aluno do ensino médio do Liceu Nilo Peçanha -, e de uma nova tecnologia – o digital, em termos de constituição e circulação de informações e discursos -, e buscamos uma renovação da visão de mundo da sociedade através dessas instâncias.
Vamos perseguir os mesmos objetivos do Cinead e do Cinema em curs: aproximar os alunos da arte cinematográfica e dos valores que lhes são próprios, isto é, trabalho em equipe, constância, capacidade de espera, imaginação e sensibilidade. Quando realizam os filmes, os alunos devem elaborar um roteiro, planejar a filmagem, assumir tarefas, transmitir e comunicar idéias, escutar e dialogar com os outros. O projeto visa um resultado que não se limita apenas ao filme, mas especialmente a todas as aprendizagens do processo. Com a visualização de filmes aprendemos a olhar a realidade com atenção, a pensar ou intuir como dar forma às idéias, a partilhar decisões e explicar as próprias escolhas, o que, de alguma maneira, constitui uma outra forma de se relacionar com o mundo e com os outros. Esse nosso maior objetivo além de criar condições de fomentar a arte na escola.
Sabemos todos da falta de condições de nossas Escolas Públicas , todavia aprendemos, fazendo coro com o poeta, inventar outras possibilidades de transformar o que está posto e não pode parecer impossível de mudar. Estaremos, assim, oportunizando uma intimidade com o cinema aos atores desse processo e simultaneamente apresentando novas formas de transmissão do saber num mundo em constante transformação.
A experiência de fazer um plano como sugerida por Bergala foi vivenciada pelos integrantes do CINEAD no ano passado no 1o Encontro Internacional de Cinema e Educação que contou com a presença de Núria Aidelman Feldeman , coordenadora de cinema em curs, que nos brindou com sua sensibilidade e arte nas palestras e oficina.
O que mais nos chamou a atenção em Núria, a artista-educadora, tanto nas palavras como no ato de fazer a oficina acontecer, foi sua forma delicada e terna de se surpreender com o espetáculo de captar e editar um instantâneo da realidade. Incrível como num cintilar de um relâmpago foi possível pressentir toda intensidade de uma proposta que busca transformar a escola apostando que fazer cinema com professores, alunos e técnicos na escola é uma possibilidade de re-criação de nossos gestos, minuciosamente cuidados e re-elaborados.
Esse encanto é o resíduo que fica diante de tanta generosidade digna daqueles que sabem educação como gesto de amor. E é o que esperamos ter apreendido para multiplicarmos com o projeto CINEAD comprometido com uma escola mais humana, feliz e profundamente emancipada.
junho 21, 2007
Apenas uma farsa
Isso é sério?
Muito bom debate! Adorei como um dos colegas enumerou os motivos pelos quais um laptop por aluno não se sustenta. Sou professora da rede pública do Rj, estava até maio com a funcão de orientadora tecnológica, além de orientadora pedagógica e educacional (como sabem sou prof. líng. port readaptada). Estou fazendo um curso de extensão já há alguns 6 meses de Mídia e educação (Ufrj), participo de uma comissão de Ots que tenta, junto com a See, discutir um projeto político pedagógico para as tics na Educação. Olha, "não é brinquedo, não!” Como militante da escola pública sempre gostei das letras e das lutas, caso contrário, seria difícil continuar o que Adorno nos ensina: educar para a resistência diante da barbárie. Além disso, participo de um grupo de estudos e pesquisa sobre cinema e educação que a partir do 2* semestre darei mais atenção porque deve ser um projeto de mestrado. Diante da era do espetáculo e do esculacho em que é preciso visibilidade porque a imagem é tudo ou, se preferirem uma linguagem mais séria, era do capitalismo financeiro, da precarização de trabalho, da diminuição do Estado,... Nessa era pós-moderna, sinto dizer-lhes que os argumentos são os menos importantes. Na nossa atualidade o simulacro toma o lugar da verdade, da coerência e os interesses conseguem tornar absurdos coisas reais. Bem vindo ao deserto de real de Zizek é primoroso para pensar nossa Matrix. Essa é a barbárie, nossa tarefa a resistência, sem perder a ternura, qualquer coisa, podemos comprá-la na esquina. Tudo pode ser comprado! É uma piada ou é sério? Não vem ao caso, interessa apenas como fazemos com esse texto um tanto quanto indiferente, mas possível. Colegas, a See tem um orçamento de 14 milhões para equipamentos e materiais para às escola públicas do Rj. A mesma secretaria que chama professor II para ser contratado e não consegue porque o salário....!!!! A minha escola tem internet sem fio na sala em que trabalho. Os laptops irão chegar sem metodologia e sem políticas públicas sérias para implementá-los. VAmos gritar, como fazemos hoje, mas será apenas mais uma performance enloquecida que rapidamente mostrar-se-á patética. Então, vamos tentar nos apropriar desses laptops e fazer uma limonada. Como diz Manuel Bandeira o que não tem remédio.... É conformista?? É revolucionário? É a vida como ela é. Precisamos todos nos capacitar o mais possível para usarmos todas as ferramentas que forem dadas para a guerra, até que possamos tomar o poder e fazer a diferença. Vamos precisar comer pelas beradas e de preferência sem morrer por isso, senão, quem fará a diferença? E as ongs sérias que me desculpem, mas como tem gente ganhando dinheiro com a inclusão digital!.
Para terminar e vocês não pensarem que pirei, deixo um vídeo amador para rirem mais um pouco: tecnologia sem metodologia de uma oficina dada pela minha tutora, divirtam-se. Encontra-se em um link nesse mesmo blog.
junho 19, 2007
Imagens e coisas
Imagens e coisas: apropriações
Interessante é que a imagem é representação e não a própria coisa. Aqui é importante fazer referência ao quadro de Magritte: Leci n’est pas une pipe http://www.rascunho.net/critica.asp?id=373 (adoro essa imagem com legenda para discutir a representação como um signo que é a elaboração de uma imagem transformada em uma peça de arte). Mesmo não sendo o próprio objeto, pode ser muito mais que isso num mundo de simulacros em que os limites entre real e representação são cada vez mais tênues. A invasão ao Iraque, me vem a memória, transmitida em rede para todo o mundo, quem viu custou a acreditar não estar diante de um jogo de vídeo game. E foi importante que não parecesse real porque o que estava em jogo era a imagem dos EUA como defensor da humanidade contra os “terroristas”. A barbárie foi editada e passava por um filtro ideológico que não podia permitir mostrar a carnificina praticada contra aquele povo. A guerra limpa, como chamamos para que não pareçam humanos os que estão sendo executados.
A imagem e suas possibilidades de interpretação, apreensão e intervenção será capturada num lance de olhar menos disperso, nesse mundo em que a visibilidade é quem inaugura a própria existência de objetos e pessoas.
Pensar essas questões e pensar-se como sujeito cognitivo/criativo capaz de interagir e intervir no processo de construção da própria história.
Assim como foi feito um recorte para os atores dos próximos capítulos será necessária uma visão mais minuciosa do corpus escolhido. Isso é uma outra etapa.
Por hora, fiquemos com um texto de Manuel de Barros (Livro das ignorâças) que tenta justificar com imagens poéticas um pouco do que se pretende com esse projeto:
As coisas não querem mais ser vistas por pessoas
Razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.
Eliana Cunha 19/06/07
maio 07, 2007
Não desistimos nunca...
Defender uma política pública inclusiva, ética e demasiadamente humana para a Educação do Estado do Rio de Janeiro é tarefa de toda a sociedade.
Não existe documento de cultura que não
seja ao mesmo tempo documento de barbárie
( Walter Benjamin)
As professoras orientadoras tecnológicas, que hoje integram uma comissão junto à See (Secretaria de Educação do Estado) para discutir um projeto de implementação das Tics (tecnológica da informação e da comunicação) na educação, além de reivindicar a volta da função dos ots, capacitados e certificados ao longo de 2006 - ainda não designados por falhas na máquina administrativa da See, vêm, de público, defender políticas públicas sérias para educação do Estado do Rio de Janeiro - historicamente construídas pela sociedade organizada e vetada pelo poder executivo.
É mister lembrar que um Plano Nacional de Educação foi elaborado no II Congresso Nacional de Educação (CONED), de 6 a 9 de novembro de 1997, e encaminhado por deputados da oposição (PL 4155/98) e teve vetos absurdos que até hoje não conseguimos derrubar. Consultores de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados e Consultores de Orçamento, Fiscalização e Controle do Senado Federal afirmam que vetos não se justificam.[1]
Começamos nosso texto por essa lembrança para que fique bem claro que vamos continuar falando do óbvio até sermos ouvidos. Não sofremos apenas de uma epidemia de cegos, como nos sugere José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), há também uma deficiência auditiva e, se me permitem, um cinismo descarado que torna invisível aquilo que não tem justificativa e nunca terá.
Valei-me, mestre Benjamin, que já vislumbrava as marcas de nossa era paradoxal em que a civilização tenta encobrir, envergonhada, sua face bárbara. E é pensando nas nossas contradições que sinto anunciar, como um anjo de mau agouro, que a manchete, tão temida por um membro da See: “alunos em casa sem professores e laboratórios de informáticas recebendo equipamentos” faz parte de um pais marcado pelo absurdo que até Kafka acharia estranho. Se a professora da See fica estarrecida com essa idéia, imaginem como deve ficar perplexa diante das manchetes nossas de todo dia: "por falta de salas de aulas, alunos assistem aulas no banheiro”, “cada aluno terá um leptop nas escolas públicas até o ano que vem”, “proposta de piso nacional para todos os professores não pode ser menor que R$800,00 "– por 40 hora, é claro, "professor tem avc na escola quando pedem para que ele trabalhe mais 5 anos para poder se aposentar", "aluno manda bomba para professora, que tem a mão amputada''.
Acho que vamos precisar de outros meios (mídias) para tornar visível nosso mundo paradoxal entre a perplexidade e as incertezas, simultaneamente atravessado pelo desenvolvimento técnico avassalador e pelo crescimento vestiginoso da miséria e da fome. É preciso tocar de alguma forma essa "gente ensurdecida" (Camões). E, se preciso for, vamos passar filmes, clipes (Do pó aos bytes, já fiz o roteiro - cuja idéia surgiu a partir de uma cena no SBT/Rj mostrando o caos das escolas no Estado no início de 2006: no meio dos escombros de uma escola vários disquetes e peças de computador, cena digna das ruínas que nos fala Benjamin), fazer performances, dramatizar textos, cantar, dançar... para mostrar a vida como ela é, no dito popular “não é brinquedo, não!” e na fala do poeta Borges:
Nosso destino (...) não é espantoso porque irreal: é espantoso porque é irreversível e de ferro. O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas sou eu o rio; é um tigre que me destrói, mas sou eu o tigre; é um fogo que me consome, mas sou eu o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real: eu, desgraçadamente, sou Borges.(p. 409)[2]
] Notas das aulas de Políticas Públicas ministradas pela dedicadíssima prof.dra. Bertha/Uerj em curso de extensão: Formação continuada de Educadores do Sepe: multiplicadores em extensão em parceria do Sepe/Uff/Uerj - Abril a julho de 2001
[2] In: Schinitman, Dora Fried. Nuevos paradigmas, cultura y subjetividad. Buenos aires: Piados, 1995: 395-413
maio 06, 2007
Vale a pena apostar no compromisso com uma educação de qualidade! Parceria Público Público - nessa, eu acredito!
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Faculdade de Educação
Departamento de Fundamentos da Educação
Centro de Filosofia e Ciências Humanas – Faculdade de Educação
Setor: Psicologia da Educação
CURSO DE EXTENSÃO: CINEMA PARA APRENDER E DESAPRENDER
Co-coordena: Profª Drª Elizabeth Luiz Soares
Um dos mais efetivos modos de aprender sobre si mesmo
é tomando seriamente a cultura de outros.
Edward Hall
Rio de JaneiroIntrodução e apresentação
O projeto do curso de extensão CINEMA PARA APRENDER E DESAPRENDER é um desdobramento articulado do projeto de pesquisa com o mesmo nome, ambos coordenados pela Profª. Drª. Adriana Fresquet, professora adjunta da disciplina Psicologia da Educação I na Faculdade de Educação da UFRJ Este curso de extensão pretende, a partir da experiência do cinema, sensibilizar o professor e o aluno para possíveis vivências ligadas às aprendizagens mais vitais de um ser humano, valorizando a possibilidade do cinema de afetar de uma forma única a inteligência, a afetividade e os sentidos.
Público Alvo
O curso de extensão está aberto a todos os professores de ensino médio, educação fundamental e educação infantil da rede pública de ensino preferencialmente. Igualmente, no dia do curso dos alunos, aceitaremos preferencialmente alunos de ensino médio da rede regular de ensino.
Objetivos do Curso
Aproximar professores e alunos da experiência do cinema.
Vivenciar o cinema como uma forma de aprendizagem.
Pensar a possibilidade de aprender em três tempos: aprender, desaprender e reaprender.
Criticar a utilização pedagógica do cinema apenas como recurso didático.
