Valei-me, mestre Sócrates!
Sobre o entendimento simplista de sala de aula e a falta de critérios objetivos para a avaliação dos profissionais da educação.
... E que todos falem ao mesmo tempo
para que fique bem claro o desentendimento.
Enquanto preparávamos o relatório da última audiência com a See, sobre a “novela” em que se transformou a situação dos orientadores tecnológicos na Rede, eu e a professora Amim, tentávamos pensar critérios objetivos mais justos para avaliar o trabalho desses professores nos Lieds. Reafirmamos a posição que defendemos na audiência: o processo avaliativo deve ser contínuo, concordamos com o ponto de vista da See a esse respeito, até porque a continuidade é um princípio próprio da avaliação que, antes de ser punitiva, pretende-se diagnóstica para corrigir possíveis “erros” cometidos no percurso. É importante dizer que avaliação enquanto processo é um meio e não um fim, por isso há que se cuidar de todo o caminhar e não apenas da chegada. Aprendemos, nesse “fazer-se” professor, que a vida acontece enquanto tentamos chegar e não apenas na chegada.
Além de concordar com a continuidade do processo avaliativo defendemos que, no momento, o único critério objetivo que podemos lançar mão para avaliar esses professores seria o da certificação recebida pelos ots capacitados no ano passado pelos Ntes. Qualquer outro critério, agora, corre o risco de ter um caráter perigosamente subjetivo dado há, pelo menos, duas circunstâncias: 1o. o projeto de informática educativa está apenas no início de sua implementação na Rede Pública Estadual; 2o. o pouco tempo da nova gestão da See - há quatro meses na administração – que sequer tomou pé da situação da pasta devido, inclusive, a urgência de viabilizar o início do ano letivo que, até hoje, está comprometido, com prédios em risco de desabamento, falta de profissionais de apoio e de professores nas escolas. Problemas que tanto conhecemos dada a sua reincidência. Nada que não seja público e notório há algum tempo nos serviços públicos prestados para os trabalhadores do Brasil.
Até que sejamos convencidos do contrário, não podemos abrir mão dessa posição. Por conta dessa nossa insistência, a See apresentou as denuncias contra os ots “inoperantes”, tentando uma outra justificativa para a retirada de todos os ots dos Lieds ,e, conseqüentemente, seu fechamento. Outra justificativa para tal atitude contra os ots, que não convence mais ninguém, é a necessidade de professores em “sala de aula” ser prioridade da See.
Vale a pena ver de novo para que não esqueçamos porque correríamos o risco de repetir os mesmos erros. Não são apenas os Lieds que têm seu projeto interrompido pela carência de profissionais na Educação. Os vários laboratórios de física, química, biologia, matemática, salas de leitura, de vídeo, teatro, há anos, são desativados no Estado. As funções de coordenador de disciplina, do coordenador pedagógico, do orientador educacional, também tiveram o mesmo fim com a mesma justificativa. E é bom que fique claro que essas funções - suporte indispensável para o processo ensino aprendizagem - precisam ser indicadas não por critérios de função extra classe e sim pelo compromisso desse ou daquele profissional com o projeto político pedagógico da escola e sua capacitação para a construção de soluções junto à comunidade escolar.
Como se vê, temos muitas razões para defender nossa posição: designação para os ots e abertura imediata dos Lieds. Mas isso não pareceu suficiente para a See, que sugeriu a constituição de uma comissão paritária para aprofundarmos todas essas e outras discussões especificas do projeto de informática educativa. Até porque fomos veementes em apelar, no final da audiência, para que a See não permita o uso dos Lieds sem uma pessoa para responder por todos aqueles equipamentos. No momento em que se está implementando os Lieds no Estado, é de fundamental importância esse cuidado, com o tempo, o ot poderá cumprir outras funções mais fundamentais. Agora, em que não temos mais a figura do aluno monitor, a comunidade escolar está apenas começando a entrar nos laboratórios, vários equipamentos estão sendo instalados e outros aguardando instalações, o ot é como o barco necessário para a travessia, depois poderá ser abandonado e o Lied ser de fato da escola em todos os sentidos. Primeiro precisamos multiplicar nossa capacitação e avançar nela. Aproveitamos para relembrá-los dos inúmeros processos de roubo e uso inadequado dos Lieds existentes nos Ntes para apuração.
Só para ilustrar essa cena, chamo a atenção para a história recente dos consultórios médicos e dentários muito bem equipados dos Cieps e Ginásios Públicos - hoje, abandonados e sucateados - um exemplo cruel do descaso com a verba pública, dinheiro dos trabalhadores desse Estado.
Adorno nos ensinou que diante de situações extremas, precisamos resistir. Como educar em tempos “sombrios”? Ensina o filósofo: com uma educação que resista ao que está posto. É o que temos feito ao longo da história da educação brasileira, é o que temos que fazer para que sucessivos governos não continuem interrompendo projetos pedagógicos que possibilitam a qualidade da educação pública no Brasil. Charge Mafalda - Quino/tiras. Nessa fala, não existe nenhuma ilusão com a promessa do “admirável mundo novo”, inaugurada pelo Iluminismo e, até hoje, perseguida. Trata-se, apenas, de uma preocupação com o tempo que passa e nada ou quase nada vemos avançar nas políticas públicas para essa população cansada de traições.
E para tentarmos dialogar com a See, que parece precisar de mais dados para pensar a celeuma dos ots, gostaria de apreciar ou reafirmar algumas considerações para tentarmos, talvez, desfazer tantos “desentendimentos” (referência à epígrafe do texto) percebidos nas falas dissonantes:
1o. A carência de professores na Rede, assim como a de pessoal de apoio, tem a ver com um projeto mais amplo que precisa ser trazido à tona para politizarmos, no sentido de contextualizar a discussão (política tem sido confundida erradamente com partidarização, a concepção aqui é defendida enquanto posição coletiva construída e não imposta dentro da polis – cidade). Trata-se de um projeto conhecido como flexibilização das relações de trabalho nas instituições públicas no mundo, ditado pelo Banco Mundial que muitos conhecem como globalização, neoliberalismo, diminuição do Estado ou apenas como capitalismo flexível ou imperialista. Em nome do qual atropela-se direitos adquiridos como paridade, aposentadoria, planos de cargos e salários e até mesmo direito à licença para estudo e licença médica. Essa flexibilização abre caminho para terceirizados, contratados, ongs, no lugar de concursos e licitações, e, articulada com a carência de políticas públicas comprometidas com os serviços de qualidade na Nação, nos Estados e Municípios, tem como objetivo o desmonte do Estado e, conseqüentemente, sua privatização. Dentro dessa lógica do capital, os direitos transformam-se em serviços, os benefícios passam a ser considerados custos e os responsáveis pelos déficits públicos.
Essa carência de qualidade para os serviços públicos passa, inegavelmente, por salários dignos, condições de trabalho saudáveis, transparentes, democráticas e humanas sem as quais tudo continuará sendo medidas paliativas e não soluções sérias;
Essas são as minha impressões sobre o fato, por isso sobrepostas - nome dessa página (blog).

Um comentário:
Para exemplicficar mais um pouco o que você disse, aí vai uma pergunta: qual o princípio que rege a estruturação da escola, o administrativo ou pedagógico? Já lhe veio a impressão de que quem realmente determina como se deve proceder a "vida" na escola é o cara responsável pelo departamento de pessoal ou aqule que digita as notas no "sistema"?
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